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“Estou pensando em desistir da minha posição" - disse o Founder da startup

Atualizado: 24 de fev.



Foi com essa frase que começou a primeira call com um co-founder que eu não conhecia. Eu sabia zero sobre ele, sobre a relevância dele para sua startup, não fazia ideia sobre quais eram os seus talentos tampouco suas dificuldades.


Incrível que, mesmo assim, a primeira frase que passou na minha cabeça foi: : “Nãããããão!!! Não desiste, não!!”. 


Mas me contive e respondi: “desistir é sempre uma opção, muitas vezes, um direito. Você precisa decidir isso nos próximos minutos?” - perguntei


“Não, não, preciso apenas falar sobre isso nos próximos minutos, acho que não tenho pressa para tomar a decisão.” - respondeu como se estivesse refletindo enquanto falava.


“Está bem, vamos dar uns passo para trás... Pode me contar tua história reforçando as experiências que te fizeram encher seu cinturão de habilidades?”.


Passei 20 minutos ouvindo uma narrativa interessantíssima, repleta de desafios vencidos a partir de esforço, inteligência, construção de alianças, reconhecimento, plot twists, enfim, estava na minha frente um empreendedor mega talentoso que adoraria ver no portfólio da Astella.


A pergunta que não queria calar na minha cabeça passou a ser: o que faz alguém tão competente pensar em desistir?


O contexto atual estava punk: cônjuge precisando de sua ajuda e acompanhamento para enfrentar uma questão de saúde cujo tratamento duraria uns 4 meses, em outra cidade; startup pivotando e demandando 110% do tempo dele; a estratégia atual da empresa foi feita contando que teria o seu hard skill para colocá-la de pé e no curto prazo não teria a quem delegar ou treinar, era ele ou ele. Mas a startup estava bem, obrigado. E foi nisso que nos apegamos, o resultado estava vindo e o prognóstico era positivo.


É claro que qualquer pessoa que vive a realidade de uma empresa que cresce exponencialmente empatiza com esse founder rapidinho. Aposto que muitos de vocês pensaram: “sei bem o que é isso” em alguma ou em várias etapas do relato.


Esse é um atalho que, nós, profissionais que mentoram founders, não podemos trilhar. Esse contexto, do jeitinho que foi narrado, é exclusivamente DESSE founder e merece uma investigação detalhada.


Warren Berger, em seu lívro “The Book of Beautilful Questions”, compartilha diversas perguntas que devemos/podemos fazer a nós mesmos quando estamos a ponto de tomar uma decisão muito importante, cujo impacto e consequência podem ser um “antes” e “depois” da decisão em nossas vidas. 


Quando a decisão a ser tomada está te fazendo escolher entre fazer uma coisa ou outra (por exemplo, entre continuar na área que trabalha atualmente ou mudar de segmento, ou entre ocupar uma posição de especialista ou de liderança). Algumas perguntas que podem ajudar:

  • When do I seem most like myself? Quais são as atividades, ambientes, interações que permitem que eu seja eu mesmo? Que são “a minha cara”?

  • What makes me forget to eat? Quão realizador era para esse founder atuar em sua startup?

  • What´s my favorite flavor of shit sandwich? What struggle or sacrifice am I willing to tolerate? Estava claro que manter-se com tantos compromissos não era uma opção. O que ele estava disposto a abrir mão? Da sua zona de influência na startup? Da velocidade das suas entregas? Da parceria com seu co-founder? Dar segurança e apoio a sua esposa?


Na obra literária “Courageous Minds – The psychology of brave decisions”, Peter Vajkoczy afirma que o processo de tomada de decisões difíceis contempla contato com nossos valores, nossa autoconfiança e nossas premissas internas (experiências passadas, nossa leitura sobre nossa habilidade de executar a decisão e características da nossa personalidade). Berger sugere perguntas para explorar esses temas também: 

  • What am I inclined to believe on this particular issue? Quais eram as crenças que estavam regendo a tomada da decisão?

  • Why do I believe what I believe? And what if I'm wrong? As crenças mapeadas são do founder ou são “emprestadas”? São crenças limitantes ou propulsoras? 

  • What am I so afraid of? What is the worst that could happen? Vamos pensar no pior cenário, qual seria? O que estou tentando evitar?

  • How would I recover from that? Ok, sejamos mais um teco pessimistas, se o pior cenário acontecer, como você enfrentá-lo?


Por fim, Berger também recomenda perguntas mais projetivas, como:

  • When I look back in 5 years, which of these options will make the better story? How does that chapter fit with the larger narrative? Qual caminho está mais alinhado com a minha história passada e a que almejo construir? Desistir ou adaptar a intensidade da sua atuação em startup?


De maneira resumida e discreta, o desenrolar da conversa com esse founder se deu com ele percebendo que estava pensando em desistir para antecipar a possível vivência de frustrar sua cônjuge não participando do tratamento exatamente como ele gostaria de participar; frustrar seu co-founder que confiou nele em ajustar a estratégia e produto e que acreditou que ele estaria 110% disponível para a empresa; frustrar as pessoas que ele contratou recentemente com o atraso do andamento dos projetos. 


E o principal, percebeu que estava cansado, exausto mental e emocionalmente e sem perspectiva de conseguir parar para recuperar fôlego. Caiu a ficha de que ele não estava em condições de tomar decisões que tivessem impactos longevos, que estava ansioso para colocar um fim no seu desconforto imediato.


Profissional com muitos skills de planejamento e processos que é, fez uma rápida análise e previu: todos os pratinhos, de alguma forma, ou cairiam, ou andariam em uma velocidade que ele não estava acostumado, um ritmo muito mais lento.


A primeira ação que tomou foi sentar com sua cônjuge, dizer que a amava, que quer que ela se sinta apoiada, mas que precisava saber exatamente o que ela esperava dele nesses 4 meses. Fez o mesmo com seu co-founder e com seus líderes diretos.


Eu costumo dizer que “alinhamento de expectativas salva vidas”. 


Essa história nos mostra que o primeiro alinhamento de expectativa que precisamos fazer é com nós mesmos. Para ser o marido que ele queria ser, ele precisaria deixar seu cargo na startup. Para ser o co-founder que ele queria ser, sua esposa teria que ir sozinha no tratamento.  


Seu pai foi um homem de grandes realizações. O founder tinha uma necessidade de se sentir “A grande realização do seu pai”, possuía uma auto exigência de dar certo em tudo que tentasse na vida. Sua auto expectativa era irreal. Quando chegamos a essa conclusão, temos duas alternativas: viver frustrado ou ajustar as expectativas.


Desenhar quem é o co-founder, líder, ser humano emocionalmente saudável e marido que ele quer ser, sem abrir mão de nenhum deles, o levou para a redefinição do que é possível. Saber o seu possível o permitiu perguntar para os outros sobre as expectativas deles, sem ter medo de não as atender. A postura foi de negociar, dizer o que é importante para ele e para os outros e chegar em um lugar que faça sentido para todos. 


Expectativas alinhadas, o próximo passo foi replanejar, definir novo cronograma, reservar agendas, touchpoints de acompanhamento, etc.


Essa frase: “...Estou pensando em desistir…” tem passado pela sua cabeça? Você está descansado(a) o suficiente para responder a essa pergunta? Você está lúcido(a)? Você tem alguém da sua confiança, que seja imparcial, para te ajudar no aprofundamento dessa reflexão? Alguém que saiba fazer perguntas com curiosidade, respeito e interesse genuíno de ajudar? Você tem pessoas ao seu redor que te apoiariam, independentemente da qualidade da sua decisão? Espero que sim. 


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